domingo, 13 de janeiro de 2008

Bittersweet ou, Tempos Interessantes*.



Parte dos Tempos Interessantes. Da esquerda pra direita: Bia, Moisés, Danuza, Mazo, Ley, Aluízio e Eu.

Como já dizia Gilles Deleuze em seu Abecedário, o que recebemos como ensinamento quando alunos não é muito mais do que aprender a sermos felizes com a solidão. Os professores talvez ensinem a nos reconciliarmos com nossa solidão... não ensinam conselhos que se tornem escolas, mas que sejam conceitos correntes, não comuns, mas manipuláveis de várias formas. Ainda para Deleuze, a universidade deve ser hoje um lugar de pesquisa contínua, não seria então papel das universidades se adaptar ao mercado de trabalho, segundo ele, esse seria o papel das escolas técnicas (Abecedário Gilles Deleuze).

Nossa passagem na Universidade talvez tenha sido rápida demais: veloz como a rima de um repentista, como uma vida infame qualquer, como um aforismo dito por uma boca no século XIX. Foram passagens efêmeras, porém, suficientes para lembrarmos de coisas para muitos dias, não gostaria de dizer para toda a vida. Um dia ouvi de um amigo que na academia passamos por experiências que sempre levaremos conosco. Só o tempo dirá!

Falo nessas rápidas palavras de momentos, de instantes vividos no interior da Universidade. Trocas de informações, fluxos contínuos ainda tão presentes que não teria a coragem de chamá-los de lembranças. Penso em dizê-los agora, os meus breves avisos para os que aqui estão:

1° Aviso: Saibam neste instante que as palavras nos marcam, hierarquizam. Elas são construídas de forma a classificar e animar a linguagem marcada pela simbologia. Usemo-las então estrategicamente; vamos fazer das palavras nossos próprios remédios e venenos, o antídoto contra as totalidades e os fascismos existentes em cada um de nós; o pharmacon de nossa arte. O desafio será o de fazer das palavras nossas aliadas, sem recatos nem prisões conceituais;

2° Aviso: Não acredite com tanta veemência naquilo tudo que lhe dizem no interior daqueles conjuntos tão bem alinhados de blocos de concreto. Fortalezas do saber, que se propagam através de pequenos fluxos que se movem. Talvez sejam palavras muito boas para o momento em que são ditas, façam carícias em nossos ouvidos, mas é muito provável que aquilo que lhe foi dito há dois meses atrás acabe virando piada na comemoração da noite;

3° Aviso: Tudo o que sabemos é parcial e temporário, e, portanto, sabendo que não podemos contemplar toda a realidade, que ninguém possui assim, a capacidade de perceber a multiplicidade de manifestações que existem, satisfazemos com a efetividade de um olhar parcial;

4° Aviso: Usemos os corpos para expressar o que há de mais forte, o que há de mais representativo, e que levamos daqui para o resto do que formos fazer. Usemos as nossas palavras, as nossas experiências, enfim, usemos todas as armas que nos foram dadas, emprestadas, ou mesmo aprimoradas no interior da universidade. Mais uma vez enfatizo: façamos das palavras venenos e antídotos poderosos;

5° Aviso: Por fim fica a pergunta. E os nossos afetos? As amizades feitas ao longo desses anos, a troca em rede estabelecida através da circulação, muitas vezes de informações, de emoções, da luta por posições nesse universo intelectual cada vez mais repleto de abismo, armadilhas, muito mais do que caminhos percorríveis. O que, afinal de contas, fazer com elas? Bom, quanto a isso provavelmente vocês saberão responder melhor do que eu.

Gostaria que essas palavras ditas não significassem uma despedida, nem muito menos um acenar de adeus. Quem sabe esses mesmos rostos possam ainda estar circulando por muito tempo pelos corredores, ouvindo suas vozes tão familiares nas salas. Que sejam palavras de saudade, memórias desse tempo que não volta nunca mais. Talvez isso seja o que eu quisesse falar e não sabia até agora. São das nossas memórias que estava falando a todo o tempo. Memórias de solidão, memórias de saudade.


Trilha sonora: Cibelle - The shine of dried electric leaves.


* Fragmento do discurso da representação discente do curso de História na colação de grau de 2005.2 do CCHLA.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Coelhinho: segunda parte


Takashi Murakami. Mememe No Kurage, 2005.

Ao me deparar com Kaikai, algo de diferente aconteceu. Não sei dizer ao certo. Não sei se foram as cores, os traços ou a forma de retratar as personagens que parecem retirados de um sonho surrealista.

Kaikai me lembra o Mágico de Óz, me lembra o Labirinto do Fauno. É uma imagem que remete a um imaginário fantástico . Faz suscitar cheiros, contornos, texturas. Fábulas que embalam e fazem lembrar momentos dos mais diversos.

Por falar nisso, esta semana vai ser exibido na tv aberta Closer. Isso me fez lembrar da primeira vez que assisti esse filme. Bem, confesso logo de início que no dia que sentei naquela sala de cinema jamais imaginei que isso fosse me afetar de maneira tão profunda.

Havíamos saído de casa para mais uma sessão de cinema em um sábado a noite qualquer. Eu tinha algumas informações vagas sobre o filme. Sabia que era dirigido por um veterano das telas que filmava uma história sobre relacionamento e sobre verdade com um quarteto de atores bem conhecidos. Belos rostinhos em um diretor que eu não conhecia em um filme sobre relacionamentos. Por que não?

Esperei que a sala escurecesse e virei para dar um beijo antes de começar a sessão. Pois bem, esse beijo mais pareceu um beijo de despedidas, dado antes de se tomar fôlego e tentar atravessar os cinqüenta metros por sob a água.

Foi mais ou menos isso que aconteceu. Ao iniciar The Blower's daughter enquanto os créditos Warner apareciam respirei o mais profundo que pude e submergi.

O filme todo me afetou. O jornalista e escritor falido me afetou. O médico onanista me afetou. Afetou-me a fotógrafa que se passa por Julia Roberts no início da película e logo depois encontra-se mergulhada por sob um mar de máscaras. Afetou-me a ternura, a vontade de amor e a sensibilidade juvenil de Claire. Alguém que possui um amor que ultrapassa as barreiras da verdade, da mentira, da dissimulação. Afinal de contas, ela só quer amar mais alguém. Finalmente um último afetar-se: a trilha sonora. E não foi só a trilha sonora por ter músicas bonitinhas e melosas que falam de ausência e de amor, mas sim porque tudo isso é aplicado na dose certa. Nem mais nem menos. A trilha conta o filme mesmo que ele fosse completamente mudo.

Esse mergulho foi feito em águas profundas. Durante a apnéia vários pensamentos me ocorreram. Especificamente sobre as nossas máscaras e a elas. Como caminhamos com tantas a tiracolo. Como nossas ações, nossos sentimentos, nossas opiniões, como tudo isso está povoado de tantas outras que nos camuflam, fazem seduzir, afastam e aproximam. Como essa fantasia faz parte de nós de maneira intrínseca, sendo quase um complexo mosaico de olhos, bocas e narizes que mudam com freqüência. Somos assim. Humano demasiado humano.

Bem, naquele dia me tornei recordista em apnéia. Lembro que recobrei fôlego e voltei ao mundo dos vivos depois de mais de sete dias. Esses dias, pensando, pensando...

Nos sete dias senti um pouco em mim de todas as fábulas que me percorrem. Calcei os sapatinhos vermelhos de Doroty, vesti uma máscara multicor, peguei corajosamente na mão do fauno e adentrei de cabeça no mundo de Kaikai...

domingo, 11 de novembro de 2007

Coelhinho: primeira parte

Nas últimas semanas tive mais um encontro dos mais agradáveis com a arte. Ao ver o mais recente conceito visual do Kanye West, impressionei-me com uma coisa em especial. O urso, marca registrada da sua carreira, permanecia nas capas de disco, nas camisetas e em todo o material do cantor. Ele agora já não era mais o urso tímido e triste de College Dropout, o primeiro trabalho de Kanye West. Nem mesmo o experimentador de emoções e sentidos de Late Registration nem de Late Orchestration. O urso que havíamos acompanhado nos último anos tornou-se adulto e quis o mundo em Graduation. Esta mudança foi proporcionada, dentre outras coisas, por essa impressão que tive logo que me deparei com a figura do nosso querido urso. A forma que ele foi retratado era totalmente diferente dos demais até então. E isso foi proporcionado pelo trabalho de um artista japonês chamado Takashi Murakami.

Na verdade essa só foi a primeira impressão sobre o trabalho de Takashi. Ao me deparar com seus outros desenhos, pude sentir um artista contemporâneo florescente, que lida em seu dia a dia com vários tipos de suporte, e que trás como característica principal a riqueza em cores e desenhos. Impressionei-me com uma seqüência em especial. Todos os desenhos relacionados a figura do Kaikai me afetaram de maneira precisa. Kaikai é o "coelhinho" que adotei e que ilustra o avatar deste espaço e dos outros que faço parte. Este desenho e outros que retratam o universo onde Kaikai está inserido me chamaram a atenção por vários motivos. Entre outros, por trazer uma série de referências de todo um movimento presente na arte, filosofia, na moda e no cotidiano. Seus trabalhos vem recheados de Pop art, de mangá, de uma potência expontânea em um movimento livre e burlesco. Suas ilustrações estão presentes nos museus, mas também em camisas, bonés e até em bolsas ricamente coloridas, desenvolvidas junto com Mark Jacobs para a Louis Vuitton.

Costumo pensar Kaikai e todo o seu universo em um caminho que vai ao largo da Hello Kitty, por exemplo. Seria uma espécie de anti-Hello Kitty, se pudéssemos imaginar algo do gênero. A construção dos significados presentes nos desenhos passa por assumir que existe o ridículo, o bestial e o belo e tudo isto pode funcionar em um mesmo espaço, circular em um mesmo tempo. E que, além do mais, tudo isso pode conviver imprimindo um ritmo a paisagem que possibilita um outro tipo de contato do espectador com a obra de arte. Nesta seqüência, Takashi Murakami consegue mesclar os sentidos, potencializando sempre a energia que estão reunidas nas cores, nos desenhos abstratos e em figuras como um urso e nas imagens tridimensionais. Tudo se torna alegria, potência, beleza e desvario.



Trilha sonora: Maria Bethânia, Rosa dos ventos.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

O bom filho a casa torna



O ferreiro voltou e com ele trouxe boas novas. Acessem o endereço eletrônico da Revista Aulas e vejam o dossiê mais recente. Ele convida a pensar Foucault, a pensar com Foucault. O Dossiê Foucault apresenta um conjunto de artigos, vídeos e resenhas de pesquisadores de todo o Brasil. Em parceria com José Ernesto Pimentel publicamos Foucault: da microfísica à biopolítica.

Vale a pena conferir toda a revista: http://www.unicamp.br/~aulas/index.htm

Bons estudos!


Trilha sonora: The graduate, hosted by Kanye West.